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Recomeços: Um convite Silencioso


Há algo quase ritualístico no simples ato de virar o calendário. Não é apenas uma troca de números; é uma pausa simbólica, um intervalo entre o que fomos e o que ainda podemos ser. A filosofia moderna, tão preocupada com a experiência concreta da vida, encontra nesse momento um terreno fértil para refletir sobre vivência, convivência e responsabilidade.

O início de um novo ano funciona como um espelho limpo. Ele nos devolve a imagem de quem somos, mas também projeta a sombra de quem desejamos nos tornar. E é justamente nesse espaço — entre o real e o possível — que nasce a oportunidade de planejar nossos rumos com mais lucidez.

Viver bem não é acumular dias, mas habitá-los com presença. A virada do ano nos lembra que o tempo é finito e, por isso, precioso. Inspirar-se nesse marco não significa criar metas inalcançáveis, mas cultivar intenções que façam sentido.

• Como quero me relacionar comigo mesmo ao longo deste ano

• Quais hábitos me aproximam da minha melhor versão

• O que posso abandonar para viver com mais leveza

Essas perguntas não exigem respostas imediatas, mas pedem honestidade. E honestidade consigo mesmo é sempre o primeiro passo para qualquer transformação.

Se vivência é o cuidado com o próprio caminho, convivência é o cuidado com o caminho compartilhado. A sociedade não é um cenário neutro; é um organismo vivo, sensível às nossas escolhas, palavras e reações.

Planejar o ano também significa planejar como queremos estar no mundo:

• Como posso agir sem ferir, humilhar ou diminuir alguém

• Como posso discordar sem me destruir emocionalmente

• Como posso participar da vida pública sem me deixar consumir por ela

A irritação constante — especialmente com política — costuma ser menos sobre o mundo e mais sobre o que deixamos que o mundo faça dentro de nós. Não se trata de ignorar debates importantes, mas de não permitir que eles sequestram nossa paz.

Em uma época marcada por excesso de informação, urgências fabricadas e opiniões inflamadas, manter a serenidade virou quase um ato filosófico. O início do ano nos convida a redefinir limites: o que realmente merece nossa energia e o que apenas rouba nossa atenção.

Respirar antes de reagir.

Observar antes de julgar.

Silenciar antes de explodir.

Esses pequenos gestos, repetidos ao longo dos meses, constroem uma convivência mais saudável — com os outros e com nós mesmos.

O ano novo como prática, não como promessa

A inspiração que sentimos em janeiro não precisa evaporar em fevereiro. Ela pode se transformar em prática cotidiana: uma forma de caminhar pelo mundo com mais consciência, gentileza e firmeza.

Planejar os rumos da vida não é controlar o futuro, mas preparar o espírito para atravessá-lo com dignidade. E agir melhor em sociedade não é um ideal distante, mas um compromisso diário, feito de escolhas simples e humanas.

Que o novo ano seja menos sobre expectativas grandiosas e mais sobre presença, cuidado e convivência lúcida. Afinal, viver bem é uma filosofia que se pratica todos os dias — e que começa, sempre, com um pequeno recomeço.

Em si na Arte

Por Marcos S. Gomes

 
 
 

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