Ecos Republicanos
- Em si na Arte

- 18 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

No alvorecer de novembro de 2025, o calendário nos convida a uma pausa contemplativa. Não é apenas o mês das folhas secas que dançam ao vento outonal, nem o prelúdio do verão prometendo renovações; é, acima de tudo, o tempo da memória republicana. Em 15 de novembro de 1889, o Brasil rasgou as vestes monárquicas e vestiu o manto da República – um ato de ousadia que ecoa como um verso inacabado na poesia nacional. Filosoficamente, esse momento evoca o eterno dilema hegeliano da dialética: tese da monarquia absolutista colidindo com a antítese republicana liberal, gerando uma síntese ainda em gestação, marcada por contradições e aspirações.
Imagine a cena como uma tela impressionista de Debret revisitada por Tarsila do Amaral: o marechal Deodoro da Fonseca, sob o sol escaldante do Rio de Janeiro, depõe D. Pedro II, o "cientista rei", sem derramamento de sangue. Não foi uma revolução guilhotinada como a francesa, mas um golpe cirúrgico, inspirado no positivismo de Comte – "Ordem e Progresso" bordado na bandeira que ainda tremula. Essa transição de uma monarquia paternalista para uma república federativa prometia liberdades: o fim do Império escravocrata, a abolição tardia de 1888 como prenúncio, e a ilusão de um povo soberano. No entanto, como diria Nietzsche, era o nascimento de um super-homem coletivo ou apenas a transvaloração de valores velhos em novos disfarces? A República veio com constituições efêmeras (1889, 1891, 1934...), ditaduras veladas e democracias frágeis, revelando que a liberdade não é um dom, mas uma conquista diária.
Hoje, em 2025, essa história pulsa com urgência filosófica para o Brasil. Vivemos uma república em crise de identidade: polarizações que ecoam o jacobinismo vs. federalismo de outrora, corrupção como o eterno retorno do mesmo niilismo, e desigualdades que questionam o contrato social rousseauniano. Independente do lado politico que se observe haverá falhas e uma certa certeza de que há algo que possa ou que se queira melhorar.
Novembro nos artisticamente obriga a revisitar essas raízes – não como nostalgia museológica, mas como catarse criativa. Pense nas óperas de Carlos Gomes, com suas árias de glória e queda, ou nas gravuras de Cândido Portinari retratando o povo anônimo que a República prometeu empoderar. Artistas contemporâneos, de Vik Muniz a Adriana Varejão, decompõem essa herança em colagens fragmentadas, convidando-nos a filosofar: a República falhou em realizar sua utopia, ou somos nós, seus filhos, que ainda não a habitamos?

Que novembro de 2025 seja, pois, um atelier filosófico. Desenhemos, com pinceladas de reflexão, um futuro republicano mais autêntico – onde ordem e progresso não sejam lemas vazios, mas sinfonia viva de justiça e criação. E você, leitor, qual verso adicionaria a essa epopeia brasileira?
Em si na Arte






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